terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Verbo transitivo.






Habitava um estado de leve procrastinação por conta de uma certa feita, e que há muito não fazia.
Não sabia responder o porquê quando a indagavam. Certamente pela sua má dicção e seu coloquialismo ao falar tentando esconder sua notável insegurança. Sobretudo quando tinha dúvidas... E eram tantas!
Sempre fazia questão de aparentar um interessante ar de superioridade, mesmo que no seu íntimo não acreditasse muito nisso. Mas fingia tão bem...
Era isso que fazia, porque era tudo o que sabia fazer. Embora agora pra ela isso nem fosse tão relevante assim. De tudo, só restava agora uma lasanha requentada - que acabara de tirar do microondas e pôr sobre a mesa - e que agora esfriava, enquanto ela assitia o jornal e respondia "boa noite" ao apresentador.
Com as luzes do apartamento apagadas, as sombras brincavam na parede durante o sôfrego trajeto do garvo à boca. O resto eram sobras...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A flor.




Derrepente ela mudou. O tic-tac no relógio ia dando o tom e, passo a passo fez-se muda. Ela mudou, mas agora parecia formidável, cabia-lhe até um clichê. Desabrochara em flor... Enquanto isso o riso de "Mariana" dourava-lhe a face.
Tempo, tempo. Agora parecia emudecer junto com o resto do mundo. E o resto do mundo parecia ter ensurdecido também. Talvez por isso ninguém pode ouvir seus passos cheios, de quê? Ou talvez tivessem mais o que caminhar... Isso também a ela pouco importava agora, estava mais interessada em ater-se à meia-lua que insistia em contemplar o fim de tarde.
Passos lentos na multidão cinzenta. Ela não, ela reluzia. Mas o mundo parecia cego também, e ninguém pode mesmo perceber no seu meio sorriso o beijo escondido a tarde inteira. Acostumara-se. E tinha outro jeito? Tinha não. E como isso soava bom! Correu lentamente a mão, meio sem jeito, pelo canto da boca e esboçou a outra metade do sorriso. Parece que havia gostado da hipótese de segredar o seu beijo escondido.
A tarde ia alaranjando nuvens longitudinais. Longe, longe. Uma brisa de inverno rodopiava em seus cabelos cor de ferrugem. Olhos no relógio. Apressara os passos rumo ao norte, antes que... Tic-tac. As nuvens se precipitaram, e precipitaram-se sobre a flor que derrepente murchara num canteiro. Mal dera tempo de abrir o guarda-chuva.





terça-feira, 10 de novembro de 2009

Com açúcar


Deram-na um fruto. Um fruto de sabor ácido e adstringente. Uma esfera pequenina e maçica de cor extravagantemente verde - típica das folhas, ervas e esmeraldas... Cheirava a fruta fresca.
E ela, com toda a sua miúdeza, fitava-o com um certo ímpeto de quem não sabe muito bem o que fazer diante de um achado aparentemente sem propósito. Em seus pensamentos, divagava acerca do que faria com seu presente.
Certamente comê-lo não ia. Frutos cítricos são tão, citrícos...
Mas, e se o propósito fosse justamente completá-lo com o que nele faltava?
Pensou que se adoçasse seu fruto, poderia enfim obter algum êxito. Então, parou de pensar, acresentou um pouco de açúcar e aquilo lhe pareceu um pouco óbvio também...
Deram-na um limão. E dele ela fez um doce, e de quebra, uma limonada.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A dança



Cansara-se daquela dança sem par. O pulso ainda pulsando num ritmo freneticamente eletrônico. Fazia calor. Fazia falta. E fazia tempo...
No chão do quarto - deitada em meio há clichês - vento entrando pela janela, observou o céu naquela noite agora fria. Nenhuma estrela, só aquele satélite natural se mantinha absoluto. Lindo, longe... E que agora parecia querer invadir com sua luz o cômodo pequeno.
Levantou-se do transe como quem desperta de um pesadelo. Talvez nem ela mesma soubesse por quanto tempo se mantivera assim, inerte... Chacoalhou a cabeça para os lados na vã tentativa de expulsar aquele enxame de interrogaçõezinhas que tanto a atordoavam. Saltitantes, multicoloridas... Eram dezenas, centenas delas.
Após um espaço de tempo breve - como uma xícara de café - as tais pontuações partiram num cortejo silencioso e ritmado, como tudo na vida dela. Ou quase tudo... Ela não. Permaneceu estática, entorpecida. E indagou lá aos seus botões: será o amor um mero engano, ou é agente que engana o amor?
Tentou chegar a uma conclusão, mas não obteve respostas. Botões vermelhos são surdos!
Pensou consigo mesma que se fosse um botão podiam pensar nisso juntas.
Ninguém por perto, só os surdos botões e o som do silêncio que ecoava no quarto. E ela ali, sozinha, podia ser o que quisesse... Naquela noite, a poetisa fingiu mais uma vez.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Terça-feira


Terça- feira... Para muitos talvez mais um desses dias comuns que antecedem a chata segunda e precedem a quarta-feira. Para mim, é dia de defenestrar meus rabiscos.

Em meio a uma ádua tentativa de escrever um texto (um singelo texto!) na primeira página do meu novo blog, talvez tenha dado de cara com um dos maires males da humanidade: a dúvida.
Ela sim é cruel, aproveita-se de centenas de milhares de possibilidades para me atazanar e fazer de mim uma pessoa um tanto quanto indecisa? Talvez...

Após escrever um parágrafo à esmo, percebo que um fardo muito pior acaba de ser anexado a minha pessoa, além de indecisa tornei-me também infértil.
A criatividade esvaiu-se.
Pegou o ultimo trem de volta a estação em que desembarcara por muitos e muitos momentos inoportunos. Cansou de ser por tantas vezes, empurrada de volta para o trem de onde não deveria sair...
Agora ela partiu. Arrumou as malas e foi-se embora.
Me deixou aqui com esse 'oco' na cabeça, um blog mal iluminado na mão e o pior! prestes a ser publicado...
Mas escrever ao nada, felizmente, não pesa só em mim.
Como diria o poeta: há metafísica bastante em não pensar em nada...

E tenho dito.

Outras Coisas Venenosas...

Outras Coisas Venenosas...